Terça-feira, Novembro 29, 2005
Arqueolembranças
Arrastei-me pelo deserto de sal pela última vez fugindo da tempestade seca e dos raios que subiam para uma troposfera escurecida rachada ao meio por uma força maior que a minha e maior que a de quem quer que eu conhecesse. Urrei sauria mas debilmente em comparação aos estrondos que desciam daqueles céus, perdendo líquidos pelos olhos, escoriado pelas pedras incandescidas que choviam em minhas costas estupidamente encurvadas, tropeçando nos troncos dos xaxins paleolíticos aplainados pela onda de choque continental e miseravelmente esburacando ainda mais minhas articulações entalado naquilo que, julgava com propriedade, era meu último rastro na terra. Procurava ávido outras montanhas com seus vales rochosos e apertados por onde me internar para esperar que a passagem do sol curasse o sem número de feridas abertas, mas as cavernas que guardavam, as mais próximas, estavam muito, muito longe e dançavam - além de minhas órbitas nubladas de dor e desesperança - uma música fúnebre que se repetia e repetia e repetia e repetia fazendo pesar meu undecamétrico pescoço a cada verso. Engasguei sem retornar a respirar deixando espáduas e flancos colapsar e despencar espasmodicamente de encontro à superfície do lago ancestral e prossegui em silêncio na minha decomposição. E em meio a toda aquela convulsão de dor, troares, fogo e expiração, bem no centro do marco daqueles tempos, só e apavorado... extingüi. | Comentários: Segunda-feira, Novembro 14, 2005
Tocaia Acontece quando me distraio em casa, precisamente naqueles segundos de introspecção meditativa em que o corpo se deixou ficar em estado de fermentação e meu olhar se perde na rememoração de um sonho aonde a mente divagou passeando com os olhos nas vastas paragens as quais me são terminantemente proibidas: a rápida viagem de volta daquelas terras quase sempre termina no olhar vidrado, sangüíneo dela, me examinando, de longe, séria e em silêncio... Não sei se é tentativa de ler meus pensamentos, sublimando o som da tv, não sei se os lê mesmo...! Só sei que a sensação é a de um bote iminente que me derrubará pesadamente no chão e destroçará minha jugular num átimo, sorvendo vísceras e ossos, abandonando os restos aos rapineiros, estas sombras que circulam onipresentes sobre minha cabeça... | Comentários: Terça-feira, Novembro 08, 2005
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