Sexta-feira, Setembro 30, 2005
À porta O vento que arranha a porta agora é o suspiro derradeiro de uma estação Que se esforçou demais em se estender e expirou. Bateria gasta. Fim do que para nós era verão. Vamos admitir o seguinte: acabou. Caiu a tarde e o horizonte, meu bem, descorou Ficou (até) sem a luz das estrelas; Só massas de nuvens rolando em silêncio no escuro, ocultando de nós seus sortilégios Nos impedindo de lê-las. Vamos sair, porque ficar perdeu´sentido. Fechar a casa. Cerrar vestíbulos. Colocar em bolsas todas´nossas coisas pequenas, Trancar portas e janelas, Descer as escadas da varanda e, estalando´folhas secas, tomar direções opostas Sem olhar pra trás. Sim, anjo, sem pena. Vamos. Uma longa noite, enfim, veio E bateu, pedinte, à nossa porta. | Comentários: Terça-feira, Setembro 20, 2005
Estação Terra fendida Ressecada Exaurida De noite espele estame da semente pisada Cuspida Humificada por dejetos vis Sem qualquer promessa de toque Das tuas delicadas mãos servis. Vem flor. E antes que exponhas teu broto aberto Serás mutilada por tenaz de inseto Calcinada por sol de mansinho Esgarçada por inculto´descuidado ancinho. Tens dor. Afogada em chuvarada Torcida Rasgada Sépala aveludada de flor de hera Resiste ao limite do seu tempo e chora orvalho de noite. Pra mim e pra você, feliz primavera. | Comentários: Quarta-feira, Setembro 14, 2005
Recaída Tempestade em mim. Choveu por dentro e Os rios de novo Transbordaram pelos olhos. Enchi Minhas ruas de espelho d´água profundo E mergulhei nele O cadáver de uma pequena esperança. Não foi mudança brusca de tempo Nem contágio em transporte público Que fez voltar a dor A rouxidão nos dedos Os refluxos na garganta A turbidez da retina A vacilação da cóclea E a constrição muscular. Bastou apenas que a tua lembrança me ventasse. | Comentários: Terça-feira, Setembro 06, 2005
Poeira
E após as brigas Ameaças E todas' partidas taças Me diz sincera Se há algo que o vento ainda não espalhou Me conta tudo aquilo que de muito profundo Ou resistente Foi teimosamente guardado Pra não ser só passado E que o último sonho teu regurgitou Me responde: Se juntar toda' poeira O que é que a gente tem? Será que dá pra construir Pelo menos u´a menagem de areia? E sobre esse amor Que (se) não é mais teu? Deixa que eu te digo: Ainda é meu. Só que eu não sou mais eu Já fui. E juro: Pouco doeu. | Comentários: |