Quarta-feira, Agosto 31, 2005

Achados & Perdidos

Procura-se ilusões! Perdi as minhas e descobri que vivia melhor com elas!!...

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Sábado, Agosto 27, 2005

Quase certeza

Queria muito que deuses interferissem na minha vida - aí eu poderia servir-lhes e granjear benesses. Simples assim.
Mas não. A igreja da vida parece ser o tempo; e eu, somente pedaço de velha tinta rosácea descascando do teto de um átrio infinito...

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Sábado, Agosto 20, 2005

Amigo

Amigo não é aquela pessoa com quem você sente prazer em conversar na maioria das ocasiões? Não é aquela pessoa que você conhece bastante bem - mas não completamente - e ela a você a ponto de se poder dar e considerar conselhos mútuos importantes? Amigo não é aquela pessoa que nota quando você precisa de ajuda e o faz sem que perceba ou peça? Não é o companheiro de diversões e dores? Não é aquele em que você pensa quando quer dividir alguma novidade ou aquele que lhe aparece na mente quando vive algo interessante e lhe deseja o mesmo? Não é aquele por quem você sente ter grandes dívidas não-financeiras e um legítimo carinho?
Às vezes penso que fiz algo de muito errado, porque me casei com a primeira pessoa que satisfez a todos esses, digamos, requisitos.

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Quinta-feira, Agosto 18, 2005

Passeio

Quando vou viajar para um lugar que não conheço, costumo esboçar um mapa dos locais por onde vou passar: rabisco num pedacinho de papel alguns pontos de referência com seus acessos mais visíveis, auxiliado por um guia de ruas. Sempre fiz isso.
Sei que metáforas são enjoativas, e que se conselhos fossem assim tão bons vinham embalados em pacotes made in Belgium, mas... me parece que viver dessa maneira esboçando mapas, mesmo simples, é a melhor opção para não se sentir perdido um dia. Sei também que essa metáfora pode se aplicar à religião, mas aí foi puramente acidental, juro.
Palavra de quem está perdido agora.

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Segunda-feira, Agosto 15, 2005

Crime e castigo

Ao que tudo indica e aponta, já tive meu quinhão de promiscuidade exacerbada neste meu meio tempo de vida: alguns passos de mãos dadas na rua Afonso Cavalcanti, no Rio.
Ares escaldantes e eternas noites tórridas incendiadas por rios de lava me aguardam por isso...

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Sexta-feira, Agosto 12, 2005

Priscas lembranças

A primeira pessoa que lembro que decepcionei foi meu avô por parte de pai. Vô Silvio. Ele morava com a vó Ligia num apartamento onde, uma vez, eu e meus irmãos, pequenos, 4/5 anos acho, fomos deixados como hóspedes temporários numas daquelas vezes em que nossos pais precisaram ficar sozinhos. Acho que aprontamos naquele dia, porque recordo termos ficado numa espécie de castigo, de pé junto a uma parede... e eu fiz língua pro vô. Ele se aproximou e disse que a cortaria com uma tesoura (...) se eu fizesse aquilo de novo, e eu, certamente indignado com tamanha ameaça, passei a exibir só a pontinha da língua e a escondê-la rapidamente, o que dificultaria - na minha infantil acepção - qualquer tentativa de sua vivisecção. Os bigodes dele tremendo de chateação enquanto gaguejava sem ação me são ainda, 35 anos depois, imagem estranhamente nítida.
Não parei com essa mania de dar a língua para toda a sorte de dificuldades, pressões e ameaças que continuaram me aparecendo vida afora.
Também não parei de decepcionar pessoas (não que me orgulhe disso).
Mas - pior de tudo - continuo junto a uma parede.

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Quinta-feira, Agosto 11, 2005

Passado

Minha sobrinha, a Karol, me ligou ainda agorinha pra conversar. Saudade, ela explicou. Quis também saber se eu já havia descarregado da digital as fotos da sua atual amiguinha, vizinha nossa, que tiramos no domingo. Respondi que já e ela, satisfeita, depois de mais um pouco de papo, desligou, dizendo que os porta-retratos pras fotos estão me esperando. Foi dormir imediatamente pra sonhar com a nova amiguinha...
Isso merece ser contado: a Karol tinha uma outra amiga, uma criança elevada a ídolo, que acabou miseravelmente adolescendo e se afastando dela, espaçando cada vez mais as ligações até o silêncio total. A dor dessa espera derradeira de um novo contato durou uns anos - acho que uns 3 ou quatro - quando Karol, subitamente, semana passada, sem ninguém dizer nada e sem emoção aparente, resolveu retirar os retratos da menina de sua estante, se desfazendo de tudo que lhe trouxesse alguma recordação. "Isso é passado", me disse ela hoje ao telefone, "morreu."
Ri comigo mesmo. Preciso entender isso como um sinal de alguma espécie de maturidade, uma espécie de exemplo de superação puramente acidental?... É, afinal, o tal sinal que venho clamando nos meus anos de semelhante espera?...
Karol tem microcefalia, resultado de medicação imprópria durante sua gestação. Quando (quando?!) serei tão adulto e senhor de mim mesmo quanto ela hoje me parece?...

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Quinta-feira, Agosto 04, 2005

Tristeza

Estar triste tem seu lado bom porque me faz produzir. Quando fico assim a mesa se enche de desenhos, o que está quebrado se concerta, o interminado encontra sua conclusão, e mais um ou dois capítulos de Adriano, de Yourcenar, são lidos; também imagino complexas tragicomédias redigíveis em todos os seus detalhes; faço mais exercício; meu cardápio se sofistica com as últimas dicas de nutricionismo; e a casa fica sempre limpa, tudo isso no afã de tentar ocupar minha mente com algo que não seja somente emparelhar mais uma vez com aquela velha dor da impossibilidade.

Porque quando estou feliz, bitolo: só penso no dia em que conseguirei beijá-la.

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