Quinta-feira, Junho 30, 2005
Quarta-feira, Junho 29, 2005
Desejos de feriado Hoje o dia está bom para mudar. Mudar por exemplo de emprego, já que o que faço não mais me seduz nem me aponta caminho seguro tanto quanto seduzia ou apontava ontem... Mudar também de paragens, para poder parar de sonhar tão repetidamente com praias, estradas costeiras e ilhas... Mudar até de fé, já que a minha mais mal assombra do que conforta e auxilia... Mudar, quem sabe, de dieta, pois afinal não se vive a vida inteira só de maçãs, feijão e bananas... Mudar de estilo - melhor conciso?... Mudar de lado pra fazer doer em vez de sentir dor... Mudar a cor das paredes da sala para negro profundo e não poder divisar onde começam nem onde terminam quando chegar em casa tarde de noite e me jogar no sofá. Mudar de idéia, já que as minhas envelheceram mais cedo do que eu mesmo... Mudar. Mas o que consegui, por enquanto, foi só mudar de camisa. | Comentários: Terça-feira, Junho 28, 2005
Caminhada Por onde ando?, me perguntam. Pelos mesmos caminhos, respondo, e isso significa necessariamente em círculos. São círculos grandes: quando passo pelo mesmo local, a casa já foi derrubada e subiram um edifício-garagem ou uma loja de roupa feminina... O meu déjà vu é, portanto, desbotado. | Comentários: Sexta-feira, Junho 24, 2005
Nuvens A grande vantagem de andar sem óculos na cidade - mesmo precisando deles - é que tudo que se enxerga vira borrão pouco distinto e homogêneo; tudo, as lojas, os carros, as pessoas... Não ter parâmetros nítidos para se fazer julgamentos, escolhas ou facilitar o assédio de desejos, vivendo como se estivesse aprisionado numa das telas enevoadas de Turner, pode ser um caminho lícito para não se entrar em parafuso. | Comentários: Quinta-feira, Junho 23, 2005
Terça-feira, Junho 21, 2005
Construindo definições nos momentos de inação O que eu não posso dizer, eu escrevo. O que eu não posso escrever, eu procuro fazer. E o que eu não posso fazer se torna automaticamente um desejo. Desejos não realizados são vontades amedrontadas. | Comentários: Sábado, Junho 18, 2005
Sexta-feira, Junho 17, 2005
Post regurgitado A minha preocupação hoje, agora, é se vou esquecer como é estar bem. | Comentários: Quinta-feira, Junho 16, 2005
Coreto
Foi como fotograma recortado De um tempo estancado na memória Que te revi. E da sombra mosqueada daquelas arcadas Cercados de praça (de novo) senti Que a vida havia me mudado Ou foi a ti, esguicho de fonte? Deus, nem sei mais onde Fui deixar minha graça! Talvez ainda esteja perdida N´algum banco daquela praça iluminada pelo sol Transparente´entorpecida Dançando em transe ao repicar de flauta e tarol Nos compassos fantasmagóricos de um velho coreto. | Comentários: Sexta-feira, Junho 10, 2005
Quinta-feira, Junho 09, 2005
Comprovação Conhecem aquele preconceito primitivo, típico de sociedades ainda envoltas em misticismos, absolutamente sem fundamento científico algum, de que não podemos revelar publicamente a alegria que temos com alguma coisa porque senão essa alegria acaba? Pois esse efeito existe, ou pelo menos sobrevive em mim hoje, simbiótica e aflitivamente. | Comentários: Quarta-feira, Junho 08, 2005
Presentes Quando se aproxima uma data comemorativa, me aflige um pouco a procura de um presente pra Guiomar; não que ela oficialmente exija sempre um, mas se eu aparecer apenas com um abraço de arrancá-la do chão ou somente um beijo ardente de 50 segundos sei que vou sentir frio nas duas noites seguintes, além de ter que assistir à exumações de passados com direito a reprise dos melhores momentos. Por isso toda vez preciso me programar com cuidado: juntar trocados com antecedência, relembrar os últimos presentes (repetições são igualmente sinais inequívocos de desinteresse para ela), prestar atenção às seções de jornais e revistas que ela se demora lendo (estes dão boas pistas) e tentar parecer que a conheço bem mais do que ela julgaria possível. Para 4 de julho, seu aniversário, já tenho um plano arquitetado que - modéstia à parte - achei brilhante. Ela tem uma Bíblia antiga, de bolso, toda desbeiçada, com marcadores de capítulos (detalhe que ela adora) dos tempos em que fazia reuniões de estudos na igreja metodista, e que consulta - geralmente de noite e sozinha - quando julga precisar de energia extra para continuar. Ou seja, é um relicário pessoal, praticamente. Pensei em reencaderná-la pra ela. Quanto a mim, sou espartano: só queria o seu perdão. Só isso. | Comentários: Sábado, Junho 04, 2005
Ensinamentos Se com as mulheres aprendi, por repetição, a dizer "não", com os homens fui diligentemente treinado a questionar credos. Com as crianças, o que aprendi foi que a dispersão muitas vezes salva da insanidade tarde demais. Exilei meu sorriso antes. E por isso pareço portador de todas as idades num corpo que me sabe errante. O que me falta ainda aprender é a sentir saudade construtiva, penso. | Comentários: Quarta-feira, Junho 01, 2005
De volta ao promontório
Foi dura a subida. Joelhos ralados e cortes de espinhos nos pulsos me arderam tal e qual feridas de um penitente; e, igual a um, não me importei com isso; só com o peito, que doeu com uma martelada quando respirei fundo, momento quando também tropecei no topo (Já devia estar acostumado com dores...). Não queria voltar, mas perdi alguma coisa lá em cima. Alguma coisa que não podia ter deixado pra trás. Ventava demais. Capim melado em flor e pedras redondas interagiam como num jardim japonês animado espalhando pólen e pedriscos - a folhagem troando nas minhas orelhas - enquanto o céu parecia se revirar pelo avesso, roxo, arrastando nuvens quilométricas em direção a um horizonte convulsionado. Ninguém acharia qualquer objeto naquela confusão de sensações, mas eu fui direto ao calcário espetado que nos servira de banco na beirada do precipício e colhi os ramos de avenca unidos com capim ofertado e recusado. Agachei-me, abrigando-me, protegendo-o das rajadas com a mão em concha, fitando-o mais uma última vez. Depois o engoli num arranco. A grota era profunda e, como eu temia despencar, não cheguei muito perto da beirada, lutando com o vento que tentava me tirar o escalpo. Fechei os olhos. E imaginei sair dali por outro caminho, pelo ar preferencialmente, só alternando os colchões de névoa do vale lá embaixo até a terra firme. Entendia que já estava em terra firme - apenas num outro nível - mas o devaneio onírico funcionou porque me acalmou. Abri os olhos. Percorri a mesma trilha da subida descendo, dolorido e febril; e febril e dolorido, fui relembrando antigas aulas de Física que me asseguraram, sussurrando, possuir eu agora pequeno punhado de átomos teus, sutilmente arrancados que foram de teus dedos pelo simples contato com o ramo de avenca, no momento dentro de mim, decompondo-se enquanto a peristalse fazia o seu trabalho. Não é mais segredo, pois, que faças parte de mim, de alguma doentia forma. Pra um certo sempre, julgo. | Comentários: |