Quinta-feira, Abril 28, 2005

Pra pensar, quando se dá uma topada na vida...

O mundo sempre foi ruim e bom; nosso olhar é que vai mudando...

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Segunda-feira, Abril 25, 2005

Sublimação

Preciso
Mudar de estado
Desesperadamente virar gás
Parar
Definitivamente
De me refletir na perfeita simetria
Que tua delicada cristalografia me ancora
Em gelo puro
Se fazendo de ouro
E não fácil ´desfaz.

Preciso tentar
Não continuar olhando para trás
Esquecer
Que o frio que hoje se sente
É agente temporário dessa breve revolução
De final luminoso.
Mergulho suicida noutro mundo.
Sublimação.

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Quarta-feira, Abril 20, 2005

Obituário

Perdi uma amiga segunda-feira. Ela estava logo ali, em cima da cômoda, do lado dos óculos, pesando os papéis das minhas lembranças, eu tinha certeza. Pois sumiu. Desapareceu. Fechou os olhos para não ver mais ninguém nem ser vista; rolou pra trás dum canto de alguma mobília que a gente nunca varre nem ilumina pra jazer imóvel, abrigada da vida em sombra e silêncio. Não se despediu, apressada que devia estar. Não deixou bilhetes. Só deixou uma falta, uma espécie de buraco no espaço, semelhante àquela sensação estranha de traição que as crianças têm quando quebra um brinquedo ou o fio se parte e a pipa some no horizonte levada pelo vento.

Apenas acho - e lamento - que se ela tivesse podido se despedir decentemente, veria que a estação estava cheia.

Tchau, Maria. A gente se vê.

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Sexta-feira, Abril 08, 2005

She

Tinha uma silhueta pequena e parecia frágil mas só até olhar pra você, quando então ficava bem evidente que a sua mais eficiente arma não era propriamente a força física. Olhos de mangá. Num segundo, paraliza; em minutos produz prostração de marcar joelhos; e antes que uma hipotética contagem de dez termine, o incauto que incorrer no erro de lhe atravessar o caminho já implora que nunca seja abandonado à própria existência, inexoravelmente entendida agora como miserável - pois como é possível a uma roda d´água fazer o seu trabalho sem um eixo ou um sinal elétrico fluir sem trilha de cobre?... Como escrever sem papel?!... Ar sem umidade... Vulcão em sono milenar. Que ninguém nunca se engane com aquele sorriso que conversa consentindo quietinho como que sapiente e no controle de tudo; eu acho que ele só não conhece a si mesmo, único defeito dele que eu aponto - para tentar reter em mim o resto de amor próprio, todo doado que foi mesmo sem ser pedido, esperdigoto vertido em mar.

Ela. Mulher-mar. Não se sabe onde começa nem onde termina. Só que é.
Mas qual de fato não o é?...

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Quinta-feira, Abril 07, 2005

Modo de fazer

Viver é muito fácil. Você só precisa se debater com um punhado de desejos irrealizáveis através dos anos; pra compensar, desenvolva rotinas, quanto mais elaboradas, mais ritualísticas, melhor. Na pior das hipóteses, esses compromissos consigo mesmo serão mais fáceis de burlar do que os compromissos com outrém... E os problemas que o atingirem - os quais você achar não ser o causador - simples, encontre um culpado ou responsável: existirão sempre muitos candidatos à sua volta. Importante: trate a verdade como vinho; se sorvê-la moderadamente, não correrá o risco de ficar diferente das pessoas e ser apontado e troçado em público. Melhor: dilua-a em água! Refugie-se na leitura de autobiografias de sucesso em vez das suas próprias lembranças; adote um seriado de tv a cabo como guru (poupa todas as experiências desagradáveis); e fique em casa quando chover (porque, afinal, pneumonia mata). Por último, colecione relógios antigos; isso lhe dará a perfeita ilusão de ser senhor do tempo; e o exercício aeróbico que fará dando corda neles nas horas mais díspares reforçará ciclicamente esse efeito.
E jamais - jamais! - caia na esparrela que é a paixão desviando o olhar do chão para o horizonte; melhor comprar um cão ou um peixe-beta.

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