Segunda-feira, Janeiro 19, 2004

Perfume

Hoje de manhã o dia estava com um cheiro diferente.
Não foi por causa da chuva da noite anterior porque o odor não era alcalino. Também não foi nada que eu comi no café - porque este foi o de sempre - café, leite, pão, manteiga e queijo branco.
Perguntei a Guiomar se o sentia; ela, do outro lado da mesa, aspirou algumas vezes, maneaou a cabeça em resposta e voltou a ler.
Procurei esquecer o cheiro, mas... ele estava sempre lá. Não foi embora depois do desodorante nem quando acabei de escovar os dentes.
Suspirei.
E desci.
Na rua, ventava em rajadas, rajadas vindas de vários lugares.
E o cheiro era sempre o mesmo, o que significava que vinha do mundo.
Tomei o ônibus, abri a janela, e o cheiro me acompanhou por toda a viagem.
No meu destino, puxei a campainha e me dirigi à porta, observando pela janela procurando nas expressões dos passantes por uma que se denunciasse também estar incomodada com aquele cheiro diferente; procurei bastante mas não encontrei nenhuma. Todo mundo - que eu nunca vira antes - parecia estar como sempre esteve...
Mas quando pus os pés na calçada... parei de sentir o cheiro.
Não sei mais se parei de sentí-lo naquele instante... ou se foi ainda dentro do ônibus...eu estava distraído... Não, não sei mais. Só sei que percebi a pele do meu rosto ceder um pouco, lentamente, à gravidade, o sol não me aquecendo mais.
E fiquei triste.
Porque justamente quando entendi que perdi aquele perfume, percebi na hora de onde ele vinha...
Aquele era o cheiro da esperança.

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Quarta-feira, Janeiro 07, 2004

Ano Novo, vida nova, blá, blá, blá...

Renovar é preciso. A uma primeira olhada, a expressão pode parecer tomar o que é antigo e jogá-lo fora, substituindo-o por algo novo e diferente. Em parte sim - isso está, inclusive no dicionário - mas a acepção pode ser mais profunda. Renovar é antes de tudo tornar melhor; transformar o que já existia em algo diferente, sim, mas com qualidade superior, utilizando as boas fundações anteriormente erguidas com trabalho e suor. Renovar não é reinventar ou recomeçar do zero. Renovar se parece mais como um sinônimo de reciclagem, essa tendência moderna e sensata que todos nós deveríamos começar a aderir. Renovar é experimentar a evolução.

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Sábado, Janeiro 03, 2004

Olhos de Vidro



Eu os vi entrar de tardezinha.
Ele baixo, ela loura, lá pelos lados da Líbero Badaró. Silenciosos e bem vestidos... mas vieram de ônibus. Pra despistar? Quem? Eu? Não podiam... Daqui vejo tudo e todos - todos num raio de mil metros, dois mil são meus olhos - e sinto tudo - basta pisarem minha calçada. E eles pisaram; tinham de pisar para me adentrar... Ambos estavam tensos. Mornos, hirtos e tensos...
Sei o que estou dizendo; conheço tensão. Há décadas convivo com ela; já em ´24 quando meu arcabouço começou a ser erguido eu a sentia nos pescoços dos burros e tocadores que arrastaram por uma São Paulo perdida no tempo a matéria que me compõe. Suas vibrações, entranhadas em minha estrutura de cimento sueco rosado e alvenaria, são calibres que me dizem exatamente os comos e os porquês destes seres sentirem seus medos, suas dúvidas, suas manias, qualquer coisa, tal a miríade de variações que já lhes experimentei. Pois sou só aparentemente sólido; absorvo bem mais do que o calor do sol que me bate em dias excepcionais ou da garoa que me ensopa na maior parte do ano.
Eu ouço: tenho cristais em meu pesadíssimo soco que amplificam murmúrios e explodem com gritos; por isso escuto perfeitamente as cabriolas verbais carregadas de promessas úmidas que o casal troca enquanto sobe pelo meu elevador de aço escovado, presente de minha última reforma. O ritmo do som de casaco roçando em saia me confidencia que não vieram visitar meu museu, nem comprar seja o que for em minhas lojinhas...
Eu sinto: a chave que caiu na minha cobertura da mão de um Comendador enfermo pôde fazer tremer - imperceptivelmente para qualquer um menos eu - minha luminária acima da cabeça do insone zelador uniformizado varrendo no segundo subsolo; por isso o coração em disparada dela, insegura se segue adiante ou não, se solta a mão dele ou a aperta ainda mais, pra mim é uma trilha de vinil de um disco antigo e conhecido, tão nítidas são suas curvas...
Eu cheiro: sou feito de ar também; guardo o vento em meus aposentos de pé direito generoso e os revolvo nos corredores e cantos de sancas trabalhadas, aspirando hoje os mofos e as creolinas, e lembrando das tintas e da madeira dos meus tempos de meninice; mas agora o ar de um determinado ponto de minha planta me sabe a feromonas...
E eu vejo: quatro facetas em Decó mesclado com um tradicionalismo francês - que já me renderam pedradas histéricas e infâmias veladas - pontilhadas de janelas retangulares coroadas de lintéis são os meus olhos, piscando aleatoriamente suas cortinas para não refratar a balbúrdia cada vez mais crescente das ruas.
Só não falo. Sou mudo e com tantas estórias para contar...! Leia-me, pois. Passe os dedos pelas minhas bossagens; vá, experimente minhas maçanetas de latão e ferro; ouça com atenção meu universo de dobradiças rangendo e espirale pelas minhas escadas... Porque está tudo lá. Toda a minha estória. E toda a estória daquelas pessoas - todas elas - que já singraram por mim, através de mim, que já me impressionaram com vida e com morte, que já nasceram milagrosamente e pereceram com violência em meu interior.
O casal agora deita em meu hotel. Mas não dorme.
Silenciosamente, respeitosamente, mergulho então mais uma vez em mais uma noite, quieto.
Edifícios, escrevam isso, estranhem ou não, também sabem o que é amor.

***
Este texto eu escrevi para um concurso da Revista da Folha de Sâo Paulo no final do ano passado. Como nada ganhou, achei que poderia postá-lo aqui sem maiores considerações.


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