Quinta-feira, Agosto 28, 2008
7, 14, 21 Não sei o nome do menininho de olho azul e cabelo de anjo do colégio - tenho vergonha de perguntar - mas sei que gosto dele. Muito. Ele não olha direito para mim e me chama por um apelido por pura gozação; já puxou meu rabo-de-cavalo duas vezes (doeu) e fez uma pintura com tinta guache marrom no meu uniforme na primeira aula de educação artística (tá, isso eu deixei, eu confesso); minha mão fica pegajosa e suspiro toda vez que vejo ele correndo no recreio (ele corre mais do que todos); fico furiosa quando uma outra menina chega perto dele para puxar conversa; e meu peito dói quando dá o último sinal do dia na escola; o tempo que passa entre a saída do portão, a chegada da noite e o término do café da manhã seguinte parecem ser mil anos de espera até que eu volte a vê-lo de novo. Sonho com ele de noite e por isso não sinto mais medo do escuro. Desenhei seu rosto na minha cabeça e sempre que fecho os olhos é ele quem eu vejo driblando qualquer um que tente pegá-lo. É o meu anjinho... Só estou contando isso pra você, ursinho, meu único confidente, porque sei que não vai me trair contando pra ninguém. Tá, as bonecas podem saber, sim, mas só elas, hein...! As minhas amigas já estão desconfiando e até já perguntaram se eu estou apaixonada (mamãe diz que sim, rindo...), mas eu sempre nego. Sempre. Um segredo: ontem teve pique antes da aula. Meninos contra meninas. Deixei que o menino de cabelo de anjo me pegasse. Ele segurou forte no meu braço (e doeu de novo...) e tomou conta da cadeia o tempo todo. Foi a única vez que adorei não ser salva por ninguém. Por isso as meninas perderam... Acho que amanhã vou perguntar o nome dele. É. Acho que só assim ele vai olhar pra mim quando eu gritar seu nome bem alto. É!... Rodrigo é o seu nome. Ele é meu vizinho de rua, mora aqui no nº 302-B com a mãe e uma tia, e ajuda o marido desta última numa carpintaria montada numa garagem de onde vejo sair lindas mesas e cadeiras semana sim semana não pra fregueses chiques da zona sul. Não tem pai; ou melhor, há três anos não tem mais sua presença em casa desde que aquele se mudou pra outra cidade com outra mulher quando ele tinha 12 anos. Talvez por isso é que ele usa aquela carinha zangada, de rebelde de cinema revoltado, todo o tempo, como que pra mostrar que apesar de "órfão" pode se proteger sozinho sem precisar correr até a barra da saia da mãe. Deus me perdoe, mas eu adoro esse jeito dele...! Mas, o melhor de tudo, acho que ele gosta de mim. Semana passada quando eu e as meninas fomos nadar no poço embaixo da nascente atrás da casa dos Mello, ele estava lá sozinho, certamente remoendo sua sorte como filho preterido, jogando pedrinhas na água em silêncio; perguntamos se podíamos nadar sem que ele nos acertasse e ele disse que sim, claro, coçando seu cabelo castanho cheio de voltinhas e dando vários passos pra trás. Mas não foi embora; parou em cima duma pedra maior e ficou lá nos assistindo. As minhas colegas ficaram constrangidas, e algumas nem se trocaram, entrando de roupa e tudo na água, dando risinhos o tempo todo. Eu não. Descalcei meus chinelos, me despi e acertei o maiô, sempre tendo a certeza de que estava sendo vista. Mergulhei devagarinho várias vezes escorrendo meu cabelo com cuidado quando emergia, boiando com a maior elegância que eu podia, tudo no meio do poço. Depois dei dois bons saltos da margem e fiz uns cinco percursos dando braçadas enérgicas de uma ponta à outra, me exibindo. Quando saí, procurei o Rodrigo em cima da pedra pra me secar ao lado dele... mas ele não estava mais lá. Não reparei o momento em que se fora e senti um ódio momentâneo por ter me esforçado tanto tempo sem resultado quando... quando vi aquelas flores de cerejeira amarradas com capim num pequeno buquê enfiado dentro dos meus chinelos. E é com essas flores de cerejeira, começando a ressecar, que marco agora a página deste querido diário. Percebemos o tempo de maneiras diferentes, conforme nossas idades e a intensidade das luzes que nos iluminam. Tempo!... Hoje faço 21 anos. Não tenho mais meu urso de pelúcia nem preciso mais de diários. O sol se pôs ontem, e hoje, ao aparecer de novo, me tornei adulta (risos). Talvez adultos tenham essa estranha pretensão de que domaram finalmente o seu tempo... Claro, bobagem isso, mesmo que me o pareça também, mas bem sei agora que crescer - externa e internamente - é basicamente um processo bastante gradual e automático de acúmulo de memórias de utilidade duvidosa. Explicação pomposa, não...? (mais risos...) O fato é que nunca soube o nome do menininho de cabelo de anjo, e da mesma maneira que o Rodrigo - e depois dele o Sandro e o Carlos e o Marcos... - eles são hoje apenas doces lembranças de uma menina que, se ainda existe em mim, está adormecida, como que mergulhada por mim mesma no fundo de um lago, conversando comigo enviando débeis bolhas de ar à superfície. São várias mulheres, aliás, pousadas no fundo deste - eu agora entendo - plácido lago... A do ursinho está lá; a que quebrou o dedo da mão uma vez, também; a que garatujava cartas de amor que nunca entregava...; a que ganhou o prêmio de escultura...; a que debutou numa viagem de ônibus interestadual sozinha, a que beijou na boca pela primeira vez, e a que chorou pela última... Estão todas lá. Fui todas elas. Quantas mais serei?... Simplesmente não sei. Só sei que não espero saber de antemão. Não me iludo mais tanto assim. Sigo, pois, purgando meus passados. Sei, sim, com um pouco mais de clareza e certeza o que me alegra e o que me machuca. Navego, pois, nesse limite, raia de um oceano às vezes gelado e ventoso, mas sem maiores medos e grandes ânsias, apesar dos perigos... Talvez ser adulto seja isso também: uma corajosa desconstrução das ilusões que nasceram com a gente. 21 anos. 252 meses. 1.092 semanas. 7.665 dias e noites - algumas dessas insones (fazer o quê...?)... É bastante tempo para se absorver coisas. É também tempo suficiente para se perceber que, afinal, tão pouco dele se passou - 1/4, de acordo com a nossa expectativa média de vida - e que ainda tenho muito, muito, muito tempo pela frente. Tempo!... Tempo. *** Escrevi este texto para ela quando ela fez 21 anos. Em março ela fez 28. Não a vejo há 7 anos... | Comentários: Terça-feira, Julho 08, 2008
Vulcão Desperto. E você sente isso como uma vibração de maldade. Calo o burburinho da tua cidade, Volvendo os olhares, E silencio teu porto; Implodo. Em você Chovem pedaços vitrificados de mim. Fogo. Te verto prosa ardente Em demasia, Varrendo tua vertente Que de vida empolgante me cobria. Regurgito-me, sufocando-te; Traindo-te Como o céu escuro bem o previra... Avanço e cubro-te. Endureço e seco. Me transformo agora em escultura; Natureza morta sobre estrutura de frágil 'delicada tessitura Que não me suportou; Que (finalmente) se rompeu. E que depois se esquece... Sou o furor do meu próprio avesso; Aquele que não ouve preces... E você, apenas mais um campanário sem sino De incineradas 'palpitantes vilas romanas de arqueológico destino. Depois adormeço. Sereno. Como se nada, Absolutamente nada, Tivesse ocorrido. | Comentários: Segunda-feira, Junho 16, 2008
Expiração Todas 'poesias começam com verbo Mas a minha não. De atitude contida, irrepleta de vida, Alvejada por inação Estende-se no chão E lamenta. Procura ao acaso por uma explicação Que não vai encontrar nem na menor dobra do artelho. Ouve seus próprios ecos E nada aprende com eles, Pois cansou-se de olhar no espelho. A subida da montanha foi cansativa E o topo, frio e vazio. A maior das conquistas me sabe azêda Vendo a bandeira que finquei, negra. Nada de sensações conflitantes, pois elas são claras: Não terminei nada; Só comecei uma longa descida. Todas 'poesias têm fundo musical Mas a minha não. Ressentida com o ar Perdida em antolhado olhar Chora muda (e) Range os dentes num ruído incidental. (Porque) Metade do que escrevo Sabe a lixo Por isso Amasso e me desfaço dessas garatujas Canalhas Atapetando 'chão. Amolo a navalha (E) Corto o pulso Pra que sangre todo tempo, Do velho odre do sentimento, Linhas sãs; Macias pecãs de doce sabor. Mas espero E logo estou mergulhado em poça Vermelha Oleosa Poesia venosa esvaída de mim mesmo – Disparos assustados na rua a esmo – Ilegível; De vida hirta, seca Coagulada. Todas ´poesias são pra todos Mas não a minha, Costurada que foi Especialmente para a sua medida. | Comentários: Komet Lua Não me trazes mais inspiração; Meu cérebro não é maior que teus frios clastos, Mas eu te percebo E você não. Em ti me arrasto para nunca ir muito longe; Porque tua negra sombra esconde Milhões de anos de pura resignação: Ser espelho d'estrela. E seu pó que cobre Toda essa mobília Seria nuvem se em ti algum vento soprasse; Seria remoinho, seria um enlace Dos teus braços em meu pescoço. (Mas) Os deuses não ouviram o sortilégio que atirei naquele poço... Me enviaram a ti, sim Em forma de cometa. Me pulverizei em tuas ásperas serranias, Te estremecendo, Embora sem barulho, mas sofrendo. Meus raios e ejetos tentando te abraçar!... Fui meteorito pequeno, Que com banal derrame se cobre Sem maior marca deixar. E, no meu céu, silenciosa Tu minguas. | Comentários: Terça-feira, Maio 13, 2008
Dúbio Dúbio é Como o real e a religião: Sentir falta santa do que nunca se teve; Dúbio é Se obrigar a esquecer O que a memória, religiosamente, jamais melhor reteve; Dúbio, gente, É chorar alegre Pela certeza - nefasta? Insana? Doente? - do que se sente. Dúbio pode ser Ter um mundo todo pra correr E ficar a olhar a bandeira da largada sem vento Pendente. Dúbio sou eu mesmo. Mofo humano; morte em vida. E assim sigo (Dubiamente) Tecendo anomalias Inexoravelmente Perdendo meus dias. | Comentários: Sexta-feira, Maio 09, 2008
Fênix Voltei com a coluna do site Traída, de São Paulo. Quem quiser... clique aqui, please. | Comentários: Quarta-feira, Março 12, 2008
Dia do lago Tem um lago no meu caminho ao LNCC. Corro diariamente pra chegar até ele, para só aí andar com calma ao seu lado. Porque gosto do desenho que o vento da manhã faz em sua superfície. Gosto do silêncio que parece que emana dele. Gosto do seu cheiro de umidade. E do brilho do sol que ele reflete, me ofuscando, me fazendo lacrimejar. Sua existência me acalma, apacienta meus dias; mesmo com a cerca que há à volta dele, me impedindo de mergulhar nele os pés. Não é cerca grande, alta; é só restritiva, até fácil de pular; mas eu respeito esse limite. Insanidade respeitar um lago praticamente público numa manhã de sol? Loucura talvez seja atribuir presenças humanas a objetos inanimados. Mas se é assim, ah, então sou louco: lago, feliz aniversário. | Comentários: Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008
Novo endereço nos próximos dois anos e meio...
Entupir a cabeça de números; me afogar em caracteres; pensar em outro idioma; dissolver-me no virtual. Quem sabe me rearranjando assim passo a enxergar tudo de maneira estrangeira, soporífera... pois estou precisando. Demais. | Comentários: Quinta-feira, Janeiro 10, 2008
Grafitti
Engraçado que, para mim - e por motivos nada artísticos - grafitti não parece arte perene... | Comentários: Segunda-feira, Dezembro 03, 2007
Ciclo E chegou o tempo das conjugações pretéritas. E o treino delas será vital, na acepção primeira da palavra. | Comentários: Sábado, Novembro 24, 2007
S.A.P.
O nome dela é Joanna. Com dois enes mesmo. Quando se senta à aula de francês, uma cadeira na minha frente, sempre cruza as pernas bem alto e deixa o kilt plissado (ou bata indiana, ela gosta de variar) escorregar do joelho até o meio da coxa, uma maldade feminina que normalmente faz o professor pronunciar errado "dangereux" e os colegas ao lado estalarem as cervicais. Não é à toa que metade das alunas a odeiem... Quanto à minha posição, considero-a privilegiada: atrás dela posso observá-la - sem o risco de qualquer constrangimento de um olho-no-olho - descer ao chão toda terça, quarta e sexta de manhã a mochila de bichinho (um panda, que mimo...), e encaixar o generoso traseiro na cadeira, ao mesmo tempo em que tira o casaquinho de caxemira e o embola, enfiando-o depois debaixo do banco, tudo em ab-so-lu-to silêncio. Desconfio que ela sabe que está sendo vista... mas se esconde assim de todos em belíssima fantasia muda de mistério. Na nuca, ela tem uma tatuagem que me conta pelo menos metade da sua história: uma taça de algum líquido escuro (Vinho? Cicuta? Sangue?) envolvida por um espinheiro com as misteriosas iniciais góticas S.A.P. se desenrolando dum papiro carcomido. Ouvi uma lenda nos corredores que dizia que quem soubesse o que significavam, receberia como prêmio céu e inferno juntos (sic). Primeiro mel, depois fogo. Primeiro luz, depois morte. Dá medo, não dá?... Mas o que me atrai mesmo em Joanna são seus cabelos, ah, vai. Longos lisos cobreados cheirando a xampú de ervas, estão sempre presos num coque perfeito graças ao calor dos trópicos; Rodin não seria tão hábil para fazer essas esculturas diárias e ainda por cima sem precisar olhar; têm as tais curvas circunscritas que Niemayer até hoje foi incapaz de imitar; e se você um dia tiver a sorte de conseguir olhar bem de perto pra eles quando estiverem debruçados sobre uma janela ensolarada, vai poder ver arco-íris. Algumas dezenas deles. Por isso, para mim, um dos momentos mais esperados dessas aulas é quando Joanna tira da mochila seu palm para anotar alguma coisa; e não é a sofisticação do seu gadget nem o fato de eu perceber detalhes da trama de sua lingerie ao curvar-se para pegá-lo embaixo do banco - um voyeur que se preze vai sempre mais longe do que isso - mas sim quando ela puxa do coque a caneta stylus que se fazia de palito pra cabelo... e uma cascata silenciosa de finas cobras brilhantes então desce encobrindo a tatuagem, quase que em câmera lenta, escondendo de novo seus segredos e fazendo balançar as paredes, até que os répteis capilares parem de se movimentar, fitando a audiência para algum futuro bote. Issssssssss... Na última sexta, depois da aula, na cantina, fui deveras incauto, confesso; me aproximei dela, devagarinho, por trás, e arrisquei, próximo a um ouvido: - "Sexe Avoir Prix"?... Bem, gente, ainda estou aqui; o que significa que só recebi metade do prêmio, por enquanto... *** Este texto foi publicado em maio de 2003 na extinta seção de Informática do jornal Tribuna de Petrópolis, com outro título. | Comentários: Resumo em verso de um processo doloroso - longa viagem por caminho espinhoso - do qual já vejo fim Concluí Que, parado, salvo a todos Menos a mim. | Comentários: Quinta-feira, Novembro 22, 2007
Somniu Tenho esperado com ânsia o momento do dia em que as pálpebras começam a pesar; quando me toma aquele torpor que liquefaz os músculos, arredonda as arestas visíveis e me solicita um enrodilhamento do corpo - para que a temperatura aumente e acelere ainda mais o processo. E, depois de transposta a momentânea escuridão dos olhos se cerrando - portal negro do condomínio do sono - virá, então, aquela figura, onírica, com a qual - depois de respeitosa vênia e convite - dançarei em roda, feliz e sem culpa. Por que essa é, finalmente, a hora de sonhar com você. | Comentários: Quarta-feira, Novembro 21, 2007
Haicai pra sair do desalento Num mundo em fel, bem áspero (Só) Me sobra tua ternura: Mancheia d´água pura. | Comentários: Sábado, Novembro 17, 2007
Vendo dentro A intuição, de todo modo, parece ser fundamentalmente uma crença especulativa constituída de informações imprecisas ou incompletas. É o último contraforte azulado no horizonte que achamos ser uma certeza. | Comentários: Segunda-feira, Novembro 12, 2007
Orbitando você (samba) Daqui Desse céu infinito Não sei se desço ou se fico Olhando você Prefiro Remoer a saudade Do que exercer a vaidade De te ter Cantando As estrelas mais frias (E) As galáxias longínqüas Qu´eu puder Assim Eu me perco num arco E mais tarde eu me acho No teu céu Não chora Teu lamento transborda E daqui é um rio Que empurra meu mar Se lembre (Que) Minhas tardes são tantas E os poentes, retratos De você me sorrindo Vem, que (mais uma) noite chegou Pra embalar em um hino Esse amor proibido E a estrela deste triste astronauta Vai brilhar. | Comentários: Terça-feira, Novembro 06, 2007
Quarta-feira, Outubro 31, 2007
Campo É tempo da roça Da capinada Rascar o terreno pra próxima semeada Arar, se dobrar de sol a sol Espremer a rega; esperar E (quando nada mais houver a se fazer) torcer; E torcer, e torcer, e torcer... Para que essa cara colheita, finalmente Chegue um dia a medrar. | Comentários: Sábado, Outubro 06, 2007
Auto-estrada A paisagem correu ao meu lado mais ou menos monótona durante os últimos 600 quilômetros. Dirigi devagar, procurando respeitar as placas, os limites de velocidade, atento aos quebra-molas e radares. Não me lembro de ter ultrapassado ninguém, nem de ter chegado perto demais de qualquer veículo... Bem, teve aquela van que me ultrapassou voando baixo, muito apressada, me tirando um fino da lateral... mas que se foi tão veloz quanto apareceu no retrovisor deixando no ar somente a minha vontade de pisar fundo e retribuir a barbeiragem... Mas não foi meu caso. Sempre conduzi com aquela minha enjoativa correção característica - descontando, claro, os anos iniciais de carteira em que a gente ainda não conhece todas as potencialidades da máquina que temos nas mãos e esbarramos nas coisas no caminho. Ou simplesmente pelo motivo de que não sou só eu que ando nessa estrada. Mas aconteceu que me deparei com um desvio. Eu já o havia visto lá atrás antes e, diante dele, lembro, havia um enorme prado de capim dourado muito recente penteado pelo vento. Lembro também de que, meio hipnotizado pela sua beleza e vastidão, ter diminuído e acionado a seta... mas na última hora, num movimento atabalhoado, permaneci na mesma estrada, talvez porque estivesse fora do mapa que eu havia desenhado (sempre desenho mapas para minhas viagens). Desde lá liguei alto o rádio, para me distrair. Mas passado um bom tempo, o mesmo desvio me apareceu de novo. Mesmo ângulo de curva, mesmo gradiente, mesmos redutores e sinalizações. Dessa vez não apontando para o mesmo prado, mas para uma espécie de floresta, explêndida, com as suas árvores arrumadas como que plantadas por alguém, exsudando riqueza de sombras e umidade. Enquadrado assim no meu pára-brisa, juro, era a visão do paraíso. Estava fora do meu mapa. Não preví seu aparecimento; não havia qualquer plano de parada. Mas, mesmo assim... parei em frente àquele desvio. ... ... ... Aos meus pés o asfalto quente frige lentamente através das solas... e a música que toca lá dentro do carro se parece muito com um choro. | Comentários: Quinta-feira, Julho 26, 2007
Quinta-feira, Junho 28, 2007
Quando menos é mais Antes eu costumava caminhar sem óculos para tentar me desligar do mundo com suas milhares de associações. Funcionava pouco, porque ainda havia a sensação auditiva do arredor (o freio do ônibus intermunicipal, a água no chafariz, uma ou outra risada...). Por isso arranjei um player de MP3; agora consigo mergulhar naquele oceano de névoa luminosa envolvido por música – a que eu escolher – sobrando apenas a percepção do vento na pele, a dureza do solo onde piso... e uma ou outra lembrança de você imiscuída entre acordes. Está ficando, pois, mais fácil viver. | Comentários: Segunda-feira, Maio 28, 2007
Amanhã Futuro e utopia deviam ser sinônimos. Não falo do futuro próximo, mas do remoto. Por mais que algum expert dos mais nobilitados resolva se recolher em seu chalé no campo, longe da cidade e dos cunhados, somente para pensar o futuro remoto, não creio que ele chegasse a 3% de acerto em qualquer previsão que viesse a fazer: na maioria esmagadora das vezes as previsões são feitas em relação a aperfeiçoamentos da ciência já existentes. Quando Jules Verne pensou em foguetes, já existiam os rojões e buscapés chineses há séculos; pássaros mecânicos já trinavam na corte do imperador bizantino no primeiro século D.C.; nossos contatos adolescente falam hoje uma língua praticamente incompreensível na internet (particularmente acho que precisam de um fonoaudiólogo), mas isso não significa que uma nova nação ou espécie esteja surgindo... Prever está se tornando cada vez mais difícil, já que as tecnologias e conhecimentos interagem sinergicamente. Por isso não se espante com previsões (esperançosas ou catastróficas) que ouvir a respeito do mundo: ele será conforme nós necessitarmos... E o mais longe que eu posso ir nele hoje é que na terça ou quarta estarei comendo sardinha cozida. | Comentários: Bundão Descobri que sou um bundão. Lá em casa, quando tocam o interfone e não é visita para o meu apartamento... eu abro a portaria. No trabalho, sempre acabo aceitando os prazos super exígüos que me impingem para entrega de resultados. Não me lembro de ter contrariado alguma criança; se ela se comporta, eu sempre interajo com ela; se não se comporta, deixo-a solta, contrariando-me eu, em silêncio. Gasto o meu dinheiro com livros e revistas que são comidos pelas traças. Fico com remorso quando passo de 10 minutos no chuveiro e quando troco a pulseira do relógio que está puindo. Também sempre estou, quando o telefone toca. Desacostumei de dizer "não" e, se continuar assim, em poucos anos precisarei fazer fono pra conseguir dizer de novo. Me acostumei, sim, a achar o que sinto e acho menos importante do que o que os outros sentem e acham; por isso, pessoal e financeiramente, me desvalorizo com o passar do tempo. Mas ainda tem mais: a comida salgada está sempre palatável. A temperatura extrema está sempre agradável. Com os contratos limitantes, sempre de acordo. As explicações descabidas, sempre aceitáveis... Bundão: criatura aplacada com suas decisões, atormentada somente pelas situações já resolvidas, e pela lembrança dos amores perdidos no tempo; ser esquisito, que prefere o transporte público a contribuir para o aquecimento global comprando um carro que o deixaria mais livre para ir e vir. Pessoa que percebe muito mais do que devia, mas que reage muito abaixo da média. Elemento perfeito pra comprovar a Seleção Natural, extingüido que será por opção própria. Deus sabe o que faz... ... ... Eu disse "Deus"? | Comentários: Quinta-feira, Março 08, 2007
Aliteração em rendição à 8 de março Mulher Qualquer Que seja tua missão És Enfim e sempre Amorosa Generosa Poderosa inspiração. | Comentários: Terça-feira, Fevereiro 27, 2007
Quarta-feira, Janeiro 10, 2007
Fotos Hoje cedo, quando saía de casa com a câmera à tira-colo, minha mulher me avisou à porta: - Ouvi no rádio que um cara foi preso na praia por estar fotografando crianças... Cuidado, hein, não saia fotografando crianças por aí que você pode acabar na cadeia e eu não tenho dinheiro pra te tirar. Aliás, não fotografe casas nem carros também, que podem pensar que você é assaltante fazendo arquivo. Nem pessoas namorando, pois viu o que a Cicarelli fez... ... Bem, quem quiser conferir meus shots, clique aqui. É uma série de close-ups de flores, pisos e garrafas de detergente. | Comentários: Segunda-feira, Janeiro 08, 2007
Salão Quando a música é boa Quando a luz a ilumina sem sombra Quando o calor do meu sangue é igual ao do ar Quando a tensão dos cadarços é exata... ... a coragem, então, desenjaula, e eu a chamo: Quer dançar? | Comentários: Quarta-feira, Dezembro 13, 2006
Mantra alternativo de Ano Novo Tristeza; que venha; que me deixe tocá-la e manipulá-la mesmo que seja como um material radioativo que me adoece com o tempo; que penetre em minhas células alterando-as, me transformando em outra coisa mais resistente a ela própria do que sou hoje. | Comentários: |